prazer!
penso as mesmas coisas redundantemente todos dias, mas se me pedir para formular uma ideia central do que se passa pela minha mente, não consigo.
as vezes acho que ando lendo muito pouco, me expondo de menos aos pensamentos dos outros. na verdade, percebo que esse tem sido um problema recorrente. me expondo de pouco aos outros e sendo exposta de menos.
as vezes quero voltar a me sentir como antes, quando eu me sentia uma pintura. me achava bela, única, e percebia que cada um me entendia de um jeito. exposta a muitos, e para cada um havia uma interpretação de mim.
nunca me incomodei em ser percebida de diferentes formas, sempre me diverti muito sendo tudo o que queria ser. me achava divertida. tão apaixonada, que não percebia se os outros eram apaixonados também. levava minha vida leve, com muita certeza que era amada e amava.
acho que senti mais forte a perda disso quando um amigo me descreveu, e pra ele eu era apenas tudo que tinha sido nos últimos anos. aqueles anos. em que eu acordava e não aguentava esperar por dormir.
isso, ainda bem, já fazem alguns anos. mas até hoje penso em dizer para ele que, quando você ama alguém, é de muita gentileza que você se lembre dela só como ela é em seu melhor. e que a tristeza é um ser de estar, passageira. alguém em seu pior apenas está, não é.
acho que fica mais fácil falar disso agora, de qualquer forma. não saberia explicar essa angústia quando tudo era motivo de angústia.
hoje em dia meu problema é outro. ando sentindo de pouco, não choro mais e nem é por não querer. ando me sentindo desconexa, como se tivesse algo na ponta da língua que não consigo pronunciar porque, de repente, perdi a capacidade de sentir sabor.
a angústia atual, entendo como a pouca exposição. percebo que a maioria das pessoas tem referência claras. olho pra você, sei que tipo de música você escuta, que tipo de filme vê, que tipo de livro gosta. se gosta. e percebo que não tenho muito disso.
antes, gostava de ser percebida de tantas formas diferentes. hoje, me irrita que muitas poucas pessoas me olham e conseguem claramente ver tudo que sou.
até mesmo quem me ama, não sabe muito sobre nada de mim.
minha irmã me contou outro dia
“estava eu e a mãe tentando adivinhar o que cada uma gostaria mais. a fulana seria isso, a ciclana aquilo, e aí quando chegou em você a gente caiu na gargalhada! … quem é que sabe o que você gostaria mais!”
também sinto muito isso em ser uma pessoa de nome difícil. muitas vezes, isso quer dizer que você é única. na grande maioria esmagadora das vezes, quer dizer que você não tem nome. você é “a menina”.
o que automaticamente me lembra de um senhor que trabalha comigo, que quando comecei a trabalhar lá e queria falar comigo simplesmente ficava falando “ou…ou” até eu entender que era comigo. em algum momento, ele começou a me chamar de Gi. não liguei muito, assumi que ele tinha perguntado meu nome pra alguém, não tinha entendido e seguiu a me chamar pelo mais próximo. depois que entendi que eu era a “Gi” pra ele ficou por isso mesmo.
mas essa semana ouvi um dos moços novos no trampo perguntar pra ele “qual o nome da menina que vê as rochas mesmo?”
“é a Yg!”
até parei o que tava fazendo pra ouvir melhor. nunca nos quatro anos que trabalhamos juntos tinha ouvido ele falar meu nome.
depois de um tempinho ele veio como quem não quer nada, bem tímido.
“desculpa Gi, é que você me lembra muito da minha filha… mas eu sei que é Yg”
sempre fico um tantinho feliz, quando me chamam pelo meu nome. não acho que as pessoas sabem o quão despersonalizante é, quando você não tem nome.
é um dos meus pensamentos mais recorrentes. e mesmo assim, outro dia vieram me perguntar:
“e pode compartilhar essas coisas que você posta?”
nem entendi, só me deixaria feliz. por que tá perguntando isso?
“ah, é que você não deixa claro em lugar nenhum que é você. achei que você talvez não fosse gostar de ser associada”
ah, sim.
uma eterna roda girando em seu próprio eixo.


